01
Resumo executivo
Há evidência forte de que uma parcela ampla da população brasileira sente distância, baixa escuta e baixa responsividade da política, embora continue majoritariamente favorável à democracia como princípio.
A evidência mais direta vem da OCDE: a percepção de que a população tem voz nas ações do governo subiu de 24% (2022) para 40% (2025), e a de que o Estado adotaria ideias da população subiu de 28% para 36%. A melhora é real, mas o patamar continua baixo para um ano eleitoral.
O quadro é paradoxal: o brasileiro continua preferindo a democracia, mas está pouco satisfeito com seu funcionamento concreto. Apenas 16% se dizem muito satisfeitos com a democracia no Brasil.
No pré-eleitoral de 2026, insegurança (69%), desânimo (61%) e medo do futuro (61%) dominam o humor coletivo. Partidos e Congresso concentram as piores notas de confiança.
Eleitoralmente, o sentimento de não ser ouvido abre espaço para quem combine escuta ativa, competência, honestidade e foco em problemas concretos — não para discursos puramente antiestablishment ou performáticos.
40%
sentem ter voz nas ações do governo (2025)
OCDE / CGU
16%
muito satisfeitos com a democracia
DataSenado · 2024
86%
não confiam no Congresso
Atlas/Estadão · mar/2026
51%
fora das identidades ideológicas polarizadas
DataSenado · 2024
02
Metodologia e critérios de leitura
Foram priorizadas fontes primárias e quase primárias em português: institutos de pesquisa, relatórios oficiais, think tanks, organizações internacionais e jornais de grande circulação. Corpus principal: Datafolha, DataSenado, Ipsos-Ipec, AtlasIntel, OCDE/CGU, Genial/Quaest e FES Brasil.
Como o mercado brasileiro ainda produz poucas perguntas diretas do tipo “você se sente ouvido pela política?”, a análise combina medidas diretas de voz e responsividade (OCDE) com proxies robustas: confiança em partidos e Congresso, satisfação com a democracia, vergonha institucional e humor nacional.
Recorte 2024–2026, com ênfase em 2026. Para voz/escuta, a melhor série compara 2022 com 2025 (divulgada pela CGU em 2026), mantida por ser o melhor indicador objetivo disponível.
Dois níveis de evidência
- Direto: medidas de voz e responsividade (OCDE/CGU).
- Proxies: confiança institucional, satisfação democrática, vergonha e humor nacional.
03
Voz e responsividade
A evidência mais direta sobre “não ser ouvido” está na OCDE. Em abril de 2022, a maioria dos brasileiros era cética sobre sua capacidade de ter voz política efetiva — o relatório sintetiza que apenas um em cada dez acredita ter influência sobre o que o governo faz.
Entre 2022 e 2025 houve melhora parcial, mas a sensação de pouca escuta continua estruturalmente relevante em um ano eleitoral.
Indicadores de voz — linha de base 2022
OCDE · Drivers of Trust in Public Institutions in Brazil
Fonte: OCDE · abril de 2022
Evolução da percepção de voz (2022 → 2025)
Atualização divulgada pela CGU em fevereiro de 2026
Fonte: CGU / OCDE · base 2025
48%
acreditam que serviços públicos melhorariam se muita gente reclamasse
CGU / OCDE · 2025
04
Democracia e satisfação — o paradoxo
O eleitor brasileiro não abandonou a ideia de democracia; ele questiona seu funcionamento, sua capacidade de entrega e sua abertura à voz cidadã. O apoio normativo permanece alto, mas a satisfação com o funcionamento concreto raramente ultrapassa a casa dos 40 pontos.
71%
Democracia é a melhor forma de governo
Datafolha · 2024
66%
Democracia é sempre a melhor forma
DataSenado · 2024
46%
Democracia brasileira com grandes problemas
Datafolha · 2024
Satisfação com a democracia no Brasil
DataSenado · Panorama Político 2024
Fonte: DataSenado · ago./set. 2024 · 21.808 entrevistas
05
Humor nacional no pré-eleitoral
Na pesquisa Datafolha de março de 2026, a sensação mais difundida diante da situação do país foi a de insegurança (69%), seguida por desânimo, medo do futuro e tristeza. Campanhas competem não só em preferência partidária, mas na tradução emocional de um mal-estar difuso.
Sentimentos ao pensar na situação do país
% dos entrevistados que relatam cada sentimento
Fonte: Datafolha · março de 2026 · 2.004 entrevistas
06
Confiança institucional
As instituições que deveriam converter a voz popular em representação organizada são justamente as menos confiáveis. O ponto convergente entre institutos é simples — mais importante do que diferenças de escala entre pesquisas.
Não confia na instituição
Diferentes institutos e escalas · 2025–2026
Fonte: Atlas/Estadão e Datafolha · 2026
Índice de Confiança Social
Nota de 0 a 100 · piores posições do ranking
Fonte: Ipsos-Ipec · julho de 2025
Vergonha de instituições
% que sentem vergonha · junho de 2025
Fonte: Datafolha · junho de 2025
07
Quem sente mais e onde
O sentimento de baixa escuta não é homogêneo. Mulheres e pessoas com menor escolaridade tendem a se sentir menos ouvidas. Regionalmente, Norte e Nordeste mostram maior abertura à ideia de responsividade via reclamação coletiva; Sudeste e Sul são mais céticos.
21.5%
Menos escolarizados — acreditam que o governo adotaria opiniões em consultas
OCDE · 2022
26.7%
Mais escolarizados — acreditam que o governo adotaria opiniões em consultas
OCDE · 2022
~40%
Norte e Nordeste — serviços melhorariam se muita gente reclamasse
OCDE · 2022
~34%
Sudeste e Sul — serviços melhorariam se muita gente reclamasse
OCDE · 2022
Avaliação do governo federal por região
Positiva e negativa · junho de 2026
Fonte: Ipsos-Ipec · junho de 2026
Juventude brasileira — confiança e democracia
FES Brasil · pesquisa 2024, divulgada em 2025
Fonte: FES Brasil — Juventudes: Um Desafio Pendente
40%
Sem identidade (nem E, D nem centro)
DataSenado · set. 2024
11%
De centro
DataSenado · set. 2024
51%
Fora das identidades polarizadas
DataSenado · set. 2024
51%
Eleitores sem identidade ideológica
Não se colocam nas identidades polarizadas clássicas. Sensíveis a pertencimento, reconhecimento e escuta prática.
57%
Jovens
Não confiam nos partidos, mas 66% ainda defendem a democracia. Rejeitam mediações tradicionais, não a política em si.
“feel less heard”
Mulheres e menos escolarizados
Menos otimistas sobre o governo adotar opiniões em consultas públicas (OCDE, 2022).
44%
Grandes cidades e capitais
Avaliação negativa do governo nas capitais, contra 35% no interior. Humor mais duro nos centros urbanos.
Recorte Ipsos
Faixa etária 25–44 anos
Concentra avaliações mais negativas do governo federal em junho de 2026.
Em disputa
Eleitores independentes
Grupo que oscila de forma relevante entre campanhas — não é base fechada.
08
Leituras eleitorais
O sentimento de não ser ouvido não beneficia automaticamente qualquer discurso antiestablishment. Beneficia, com mais probabilidade, quem se apresenta como ponte entre frustração e solução.
A demanda central não é por ruído; é por resposta convincente. Competência, honestidade e compromisso com o povo lideram os atributos desejados.
Candidaturas antiestablishment têm pista de decolagem (partidos e Congresso mal avaliados), mas o mesmo eleitor pune quem parece corrupto, autoritário ou desconectado dos problemas reais.
A rejeição parece relativamente rígida — frequentemente acima de 50% dizem que não diminuiria em hipótese alguma. Ainda assim, apresentar bons resultados e mudar postura aparecem como mecanismos moderados de redução.
O sentimento de não ser ouvido não está fixado em nenhuma candidatura específica; é um recurso disputável. Quem traduz melhor em proposta, linguagem e credibilidade pode deslocar a eleição.
Atributos mais desejados no candidato ideal
% que cita o atributo ao imaginar o candidato ideal
Fonte: Atlas/Arko · Raízes da rejeição · 2026
Sobre rejeição política
Entre os principais motivos de rejeição a figuras políticas, dominam percepções de envolvimento ou conivência com corrupção, associação a projetos autoritários e desconexão com problemas reais. A resposta dominante sobre se a rejeição poderia diminuir é “não diminuiria em hipótese alguma” — mas apresentar bons resultados e mudar postura aparecem como mecanismos moderados e consistentes de redução.
09
Pesquisas comparadas
Tabela consolidada das principais fontes consultadas, com data de divulgação, amostra, pergunta-chave e resultado ligado à sensação de não ser ouvido.
| Fonte | Data | Amostra | Pergunta | Resultado |
|---|---|---|---|---|
| OCDE — Drivers of Trust in Brazil | dez. 2023 (base abr/2022) | Brasil | Voz em decisões locais; adoção em consultas | 27,2% teriam oportunidade de voz local; 21,5% acham que o governo adotaria opiniões; ~1 em 10 acredita ter influência. |
| CGU / OCDE — resultados 2025 | fev. 2026 | Comparação 2022–2025 | Voz nas ações do governo; adoção de ideias | Voz: 24% → 40%. Adoção de ideias: 28% → 36%. 48% acham que serviços melhorariam se muita gente reclamasse. |
| DataSenado — Panorama Político 2024 | ago./set. 2024 | 21.808 entrevistas | Satisfação e apoio à democracia | 33% nada satisfeitos, 47% pouco, 16% muito; 66% dizem democracia é sempre a melhor forma. |
| DataSenado — Perfil ideológico | set. 2024 | 21.808 entrevistas | Autoposicionamento ideológico | 40% sem identidade E/D/centro; com 11% de centro = 51% fora das polarizações clássicas. |
| Datafolha / Folha | mar. 2024 | Nacional | Democracia é melhor forma de governo? | 71% sim; 46% veem a democracia brasileira com grandes problemas. |
| Ipsos-Ipec — Confiança Social 2025 | jul. 2025 | 2.000 · 131 municípios | Confiança em instituições (0–100) | Partidos 32; Congresso 37; Presidência 41. |
| Datafolha / Poder360 | mar. 2026 | 2.004 · 137 municípios | Confiança nas instituições | 52% não confiam em partidos; 45% Congresso; 43% Presidência e STF. |
| Datafolha — humor pré-eleitoral | mar. 2026 | Mesma rodada nacional | Sentimentos sobre o país | 69% inseguros, 61% desanimados, 61% medo do futuro, 59% tristes. |
| Atlas/Estadão | mar. 2026 | 2.090 respondentes | Confiança em instituições | 86% não confiam no Congresso; 59% no governo federal e STF. |
| Atlas/Arko — Raízes da rejeição | mar./abr. 2026 | 4.224 respondentes | Atributos do candidato ideal | Competência 63,2%; honestidade 42,3%; compromisso com o povo 40,6%. |
| Ipsos-Ipec — Avaliação do governo | jun. 2026 | 2.000 · 130 municípios | Avaliação do governo federal | 32% ótimo/bom; positivo maior no Nordeste; negativo maior em capitais, Sudeste e Sul. |
| FES Brasil — Juventudes | 2024/2025 | Jovens brasileiros | Confiança e democracia | 57% não confiam em partidos; 66% defendem democracia; 19% querem se engajar. |
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Fontes priorizadas
- OCDE — Drivers of Trust in Public Institutions in Brazil
- CGU — Confiança nas instituições do Brasil (OCDE)
- DataSenado — Panorama Político 2024
- DataSenado — Perfil ideológico dos eleitores
- Datafolha / Folha
- Datafolha / Poder360
- Ipsos-Ipec — Índice de Confiança Social 2025
- Ipsos — Avaliação do Governo Federal (jun. 2026)
- Atlas/Estadão — Confiança no Judiciário
- Atlas/Arko — Raízes da rejeição
- Genial/Quaest — Pesquisas 2026
- FES Brasil — Juventudes: Um Desafio Pendente
- Exame/Ipsos-Ipec — Análise longitudinal
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Limitações e grau de confiança
Escassez de perguntas diretas
Poucas perguntas repetidas em 2026 sobre “sentir-se ouvido pela política”. O melhor material é a OCDE (base 2022, atualização 2025). A conclusão depende de combinar medidas diretas com proxies.
Recorte urbano/rural
Quase nenhuma fonte priorizada traz corte rural clássico. O substituto foi capitais/interior e porte do município (Ipsos-Ipec, jun. 2026).
Grau de confiança geral
Alto para baixa confiança nas instituições representativas e mal-estar pré-eleitoral. Médio-alto para a sensação disseminada de não ser ouvido. Médio para generalizações finas sobre subgrupos locais.